domingo, 23 de novembro de 2008

Sofia

Éramos meu irmão Alberte e eu. Morávamos em um subúrbio em Londres e trabalhávamos no açougue mais famoso da cidade. Ninguém explicava o delicioso gosto da carne moída comprada lá. Pessoas do país inteiro viajavam a Londres à procura da famosa carne. Seu dono era um Alemão chamado Manfred Gumz, homem que tinha um cheiro muito estranho e que nos pagava um mísero salário.

No fim do dia, íamos em direção ao pub que ficava no centro de Londres, onde se encontravam grandes intelectuais da época. No caminho, Albert sempre desaparecia com a primeira messalina que encontrava na rua e eu seguia em frente até o pub.

O velho Gumz sempre estava lá, resmungando com seu caneco de chop na mão. Ninguém chegava muito perto dele, comparavam o seu cheiro ao de um porco podre. Bebíamos um líquido de cor verde-pálido, absinto, chamado também de fada verde.

Ao sair dali, me perdia na noite. Era guiado apenas pela mãe dos poetas, mais conhecida como lua. Geralmente uma prostituta me levava para sua cama. Chegando lá, mesmo antes de ela desabotoar seu decote, oferecia-lhe aquela verde bebida, agora já com as gotas de um infalível veneno. Esperava que ele agisse, fazendo com que seu corpo não passasse de carne, e então eu teria o poder completo sobre ele. Ao fim eu ainda tinha tempo de olhar seu rosto suave, falecido ao luar.

Certa noite, o velho Gumz parecia muito ansioso. Imaginei que era por causa da falta de carne no açougue. Havia bebido muito, levantou-se e saiu apressadamente. Ninguém entendeu o porquê. Logo em seguida chegou Albert e comentou que encontrou o velho Gumz na rua e que estava muito estranho, quase irreconhecível. Depois de alguns goles decidimos ir para casa. Passamos pelo cemitério para cortar caminho. Não sei porque, mas sentia um ar tão bom naquele caminho.

Foi então que ouvimos um grito. Não demos atenção, pois era comum ouvir os últimos gritos de uma mulher da vida, principalmente naquela hora. Na esquina de casa encontrei uma mulher. Me interessei muito por ela. Albert seguiu em frente e eu fiquei com ela. Seu nome era Sofia e seu sorriso me fazia esquecer a podridão em que vivia. Naquela noite eu faria sexo com uma mulher viva.

No dia seguinte o açougue se encontrava cheio de carne. Segundo o velho a carne havia chegado de manhã bem cedo com o barco. Logo chegariam seus clientes e a mercadoria acabaria rapidamente. Por isso o velho Gumz preferia sua famosa carne moída. Ele nunca mencionou de onde ela vinha. A única coisa que sabia era que vendia muito bem.

De noite, ao sair do pub, ouvi mais gritos. Desta vez a voz não era de uma mulher. Segui pela rua, curioso, andando sempre pelo nevoeiro londrino, que era onde eu me sentia mais seguro. Foi então que vi um sujeito gordo com um punhal sangrento em uma mão e com a outra arrastava o homem morto. Fiquei calado e imóvel. Era normal encontrar corpos na rua. Geralmente eram bêbados que brigavam até um morrer ou corpos deixados por uma pessoa como eu. Esperei o homem sair dali e então fui embora. Não parava de pensar em Sofia, mas esta noite não a encontrei. Passei a noite com mais um cadáver.

No dia seguinte havia mais carne no açougue e achei estranho. Perguntei ao velho o porquê de tanta carne, ele respondeu:

- Para não faltar mais tarde, é uma carne difícil de se encontrar.

Fiquei quieto e voltei a trabalhar. Achei o velho Gumz muito estranho, mais estranho que ele já era. Pensei vagamente em segui-lo depois que fechasse o açougue. E mais tarde, quando saísse do pub, eu iria atrás, o seguiria como se fosse sua sombra.

Já passava da meia noite quando ele levantou de seu banco, pegou seu casaco e seu chapéu e saiu cambaleando pela porta. Como havia planejado aquela tarde, segui-o, tomando cuidado para não ser visto. Ele andava no meio da rua, iluminado pelas luzes dos postes e eu sempre pela sombra. Foi então que ele parou em frente a um bêbado que estava jogado pelo chão, sacou seu punhal e o atacou no pescoço. Não acreditei no que vi. Um velho bêbado fedido e agora assassino.

Eu o segui até uma casinha que ficava a três ruas da taverna. Ele parou, abriu o portão e então levou o corpo para dentro. Esperei um pouco, não sabia se minha curiosidade falaria mais alto que meu medo.

A curiosidade falou mais alto. Subi em uma árvore, de onde dava para enxergar por uma grande janela um pedaço da casa. Olhando pela janela dava para ver uma estranha máquina, muito parecida com um moedor, só que muito grande. Foi quando o velho colocou o corpo na máquina e girou a sua enorme manivela, saindo uma carne muito familiar pela outra ponta. Por mais que fosse estranho, não senti nojo da carne. Após um tempo, o velho saiu novamente da casa. Parece que foi procurar mais carne fresca.

Foi então que pensei em meu irmão Albert e saí correndo até a taverna. Chegando lá, perguntei a todos se o tinham visto. Os que ainda se encontravam conscientes responderam que Albert saiu há pouco tempo daqui.

Corri pela rua em direção de casa. Ao chegar no cemitério me deparei com uma figura belíssima. Uma garota deitada e abraçada em uma lápide. Estava nua e tinha uma aparência pálida, parecia desacordada. Fiquei um certo tempo apreciando sua beleza e, com o toque da lua, a noite se tornava ainda mais bela.

Por um momento esqueci o que havia ocorrido antes. Era um coisa tão encantadora! Então resolvi me aproximar. Logo percebi que era Sofia, deitei-me ao seu lado e em pouco tempo estava em cima de seu corpo. Foi quando percebi que ela não respirava mais. Isso não mudava o que eu sentia. Tornava-se até mais belo. Então que senti uma forte batida em minhas costas. Era o velho e Sofia era sua próxima vitima. Levantei-me e defendi seu corpo como se fosse o meu, peguei a primeira coisa que vi no chão e fui para cima do velho. Foi quando ele percebeu quem eu era e falou:

- Não queria o fazer, mas agora que você sabe não tenho outra escolha.

No fim da luta ele estava caído no chão e eu, exausto. Levei Sofia para meu quarto e a coloquei em minha cama, a luz do luar que entrava pela minha janela e se espalhava pelo meu quarto me fez sentir algo muito forte, um grande sentimento.

Olhando Sofia tão bela deitada em minha cama, aquele sentimento se fortalecia. Foi a melhor noite de minha vida. De manhã, senti-me angustiado, bebi do veneno, deitei-me novamente, abracei Sofia e pensei que logo estaria com ela.

Por: Paulo Rodrigo

4 comentários:

Leiteiro Londrino disse...

Genial rapaz; você caminha com passos largos no quesito história bem contada. Continue com o trabalho, que continuarei acompanhando-o.

estante disse...

mui bueno realmente

zé disse...

cara, paguei uma pau enorme pra isso! mto bom msmo!

Fausto R. disse...

olha só que apareceu por aqui de novo... o zé... sagyuasgyuas
sempre bem vindo Zé. o/