sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A Isca (conto)

por Guilherme Bernardes

Todos achavam esquisito que ele ficasse até mais tarde lá, parado, na beira do rio, perto dos arbustos, com sua vara de pescar, suas roupas sujas de terra vermelha, o típico chapéu de um velho pescador que passa o dia inteiro debaixo de sol forte e a sua latinha de iscas sempre ao seu lado.
Fazia tempo que ele ia pra casa sempre de mãos vazias, o que intrigava a todos, pois sabiam o quão farto era o rio em quantidade de peixes, e que, mesmo morando sozinho, o pescador precisava se alimentar. Como não tinha fazenda, não tinha plantação de subsistência, nem criação de animal algum que pudesse matar para comer depois. Como sobrevivia era um mistério.
Estava sozinho desde que sua esposa faleceu misteriosamente. Seu corpo sumira e nunca mais fora visto. Chegou-se a alarmar a região com medo de que um assassino pudesse estar à solta, mas o isolamento do caso fez com que ele fosse deixado de lado e, sem demora, esquecido. Se houvesse um assassino que continuava seu trabalho sem que percebesse, esse era um homem, ou mulher, com muita inteligência.
O pescador não falava muito. Dava o bom dia, boa tarde ou boa noite quando ditos para ele em primeiro lugar e não passava disso. Algumas pessoas diziam que era louco, e que falava sozinho enquanto ficava lá pescando nada. Como se estivesse apenas conversando com os peixes. Havia relatos de vê-lo chorando às margens do rio, como se tivesse ficado magoado por algo dito pelos seres aquáticos, e até teria tido uma discussão com eles.
Todo dia quando ia embora, deixava sua lata de iscas onde se sentava sempre que saia de sua casa para mais uma pescaria. Ela tinha algo de especial, pois nunca viram o homem levar mais iscas consigo, logo, as iscas já deveriam ter acabado há muito tempo.
Nunca houve alguém com coragem o suficiente para perguntar algo ao pescador, como se sentia, como andava a vida, muito menos o porquê de ele ficar lá estático, todo o santo dia sem levar nada pra casa. Foi quando um novo morador chegou à cidade.
Era um rapaz novo, recém formado, que voltava para sua terra natal depois de ter ido para a cidade grande estudar numa faculdade. Ele se lembrava de já ver o pescador na época que era apenas um garoto, e se surpreendeu ao ver que ele ainda continuava com os velhos hábitos nada convencionais. Decidiu cumprimentá-lo.
Ao aproximar-se do senhor, o velho encara-o com uma expressão ameaçadora. Sussurra algumas palavras e, vendo que é indesejado, o rapaz retira-se pedindo desculpas, mas enquanto se afastava, escutou com clareza a frase “e não chegue perto das minhas iscas!”
O jovem não entendeu o porquê de tanto zelo por uma simples lata de minhocas que nem era levada para casa. Sua curiosidade ficou tão grande que ele decidiu que na mesma noite, quando o pescador já estive em casa dormindo, passaria ao lado do rio para olhar o que tinha de tão especial naquela lata.
Anoitece. Ansioso, o rapaz sai de sua casa e anda com cautela pela deserta cidade até avistar o rio. Tenta fazer pouco barulho quando pisava no mato alto, sabia que qualquer barulho muito alto acordaria os vizinhos, que numa cidade pequena interiorana como essa, não hesitariam em sacar uma arma. Enfim chega até onde ficava a misteriosa lata de milho velha que o pescador usava para guardar suas iscas. Ao olhar dentro dela, uma enorme surpresa. O que havia dentro da lata não eram minhocas, eram dedos humanos! O rapaz se assusta, mas não grita. Não acredita no que vê, tenta ver se não é apenas um sonho, quando de repente alguém sai dos arbustos e ele é segurado pelas costas e tem a boca tapada por uma mão suja.
- Eu disse para não chegar perto das minhas iscas, não disse?! – falou o velho pescador em tom de deboche. Segurou o rapaz por mais algum tempo até que fosse tempo demais sem respirar e o jovem logo morresse. Sacou uma faca de seu bolso e cortou-lhe os dedos da mão. Pôs dentro de sua lata de iscas e, com um sorriso, levou o corpo consigo para as refeições da semana.

4 comentários:

Paulo Rodrigo disse...

muito bom!

victor_rodrigues8 disse...

gosto do jeito que tu escreve gui.

zé disse...

realmente mto bom!

Anônimo disse...

Sim, gostei desse seu conto, mas é necessário firmar mais a questão do fantástico. Porém, o que mais pega são os tempos verbais. Veja essas partes: Anoitece.[...] Tenta [...] pisava [...] sabia [...] acordaria [...] que numa cidade pequena interiorana como essa [...] chega [...] ficava a misteriosa lata de milho. [...] O que havia dentro [...].
No início desse parágrafo, você inicia com o verbo no presente e, depois, joga a ação no passado. Isso fica um pouco confuso, desconcentra o leitor.
No mais, leia mais, estude um pouco mais essa nossa língua divina e escreva, muito mais!
É isso aí, cara!